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Roberto K. Pacheco
Texto elaborado a partir da dissertação de mestrado “Poeira de Estrelas – Símbolos e discursos entre usuários de drogas e seus terapeutas em Recife”, orientada pela Dra Danielle Perin Rocha Pitta e defendida em 2004 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco.
Estou num labirinto com labirintite”.
(Paciente adolescente anônima)
Os indivíduos usualmente chamados de “drogados” circulam em um mundo habitado por sombras e dores, assombrados por sonhos e dúvidas. Da parte dos usuários de drogas, a luz brilha ocasionalmente entre a exclusão e a cesura, a cada dose, em cada clarão do ‘barato’, como fogos de artifício em noite sem luar, ainda que quase sempre mais alívio do que êxtase; para os seus terapeutas, o mar de frustração das reincidências é apenas visitado pelos relâmpagos esparsos das remissões.
Esse labirinto onde se entrelaçam os fios de diversas disciplinas e poderes; onde a re-significação de práticas tradicionais embaralha-se com a criação de novas drogas; e as fronteiras entre a moda e o crime, o prazer e a morte, o eu e a transcendência, mostram-se tão permeáveis, pode tornar-se mais compreensível por meio de uma perspectiva que transcenda algumas dicotomias, como as que separam drogas lícitas e ilícitas, ou práticas e imaginários sociais.
Atualmente, observa-se que nos contextos das sociedades ocidentais urbanas, os ‘drogados’ despertam medo e rejeição. Consideram-nos um problema médico-jurídico, havendo um certo consenso de que são irrecuperáveis, o que é ratificado pelas estatísticas desfavoráveis sobre a recuperação de pacientes em tratamento, independente da abordagem terapêutica utilizada. O usuário de drogas é instituído como anti-norma de um modelo de indivíduo cuja saúde é, simultaneamente, objeto de constante atenção pessoal, objeto da medicina e da política de Estado. A categoria do ‘drogado’ parece estar freqüentemente imbricada com a do ‘jovem’. Entretanto, como se questiona Winnicott, as várias dimensões da criança – e por extensão, do adolescente – são disputadas por diversas disciplinas:
“Contrastando com a multiplicidade destas várias reivindicações, o animal humano individual possui uma unidade e um tema central, e é necessário que possamos juntar numa única exposição complexa os comentários produzidos a partir de cada um desses postos de observação”. (WINNICOTT, 1990: 25)
Entre julho de 2002 e agosto de 2003 realizei a observação participante em um centro especializado de tratamento às dependências químicas de um grande hospital do Recife, praticando a psicoterapia com os pacientes e convivendo com seus demais terapeutas – colegas psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais. Durante seis meses, também como experiência de campo, freqüentei os espaços de moradia e lazer de um grupo de usuários de drogas, que não estavam em tratamento, os quais denominei de ‘impacientes’. Os objetivos da pesquisa incluíam investigar as inter-relações simbólicas entre os grupos. Os frutos etnográficos e as prerrogativas do método escolhido – no âmbito dos estudos do imaginário – levaram-me a conceber a dissertação no formato de romance, que se pretende polifônico, no sentido que Bakhtin atribui ao romance de formação do sujeito e de seu contexto.
Se tivesse que resumir a questão que os pacientes me colocam, certamente seria esta: QUEM É TRATADO? E para respondê-la, precisaria rever não somente minhas representações dos pacientes, mas também minha práxis psicoterapêutica e mesmo os pressupostos que norteiam minha pesquisa.
As tendências não vaticinam perfis; mas vale listá-las, talvez torne o sujeito usuário de drogas menos nebuloso, embora não menos paradoxal. Usos precoces de drogas e usos entre familiares; nós na comunicação intrafamiliar em conjunção com ausências e desempenhos insuficientes das figuras parentais; mágicas neutralizações do monstro da frustração; Narciso no umbigo do furacão (e ele é vazio e silencioso e escuro); um labirinto que se estende em espiral até o infinito do outro; multidões incalculáveis entoam o epitáfio do último ideal enquanto os doutores continuam explicando doenças e vendendo a cura; más companhias não são páreo para a concorrência da hegemônica cultura do gozo; a agonia e o êxtase (a droga é um pretexto para o encontro ou o seu avesso?); a mútua manipulação do estigma (o sujeito quer usar a droga ou ser quem usa a droga?); e a pergunta que inclui milênios de filosofia e apenas algumas décadas de ciências da saúde: quem se contenta em visitar o paraíso e quem não desiste de tentar habitá-lo? E com a queda na armadilha circular da dependência, o susto com o hálito mortal do derradeiro limite desencadeando a demanda por tratamento, há a introjeção do discurso médico-normatizador e a demonização das drogas e de seu mundo.
“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito aqui alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras”.
(MACHADO DE ASSIS, 1981: 283)
Labirintos ladeados por abismos. Assim como quem comenta a rotina ou o telejornal, meus interlocutores me contam seus sonhos - e nas expressões um pedido, um convite à interpretação, ou à cumplicidade. Agora o que era estranhamento existencial se transformou em crise epistemológica. Meus interlocutores da favela não têm crises epistemológicas. Eles têm fome, frio, medo, vergonha, inveja e ódio. Eles têm uma dúvida nebulosa e fugaz, que se confunde com a esperança, e que sussurra coisas como Deus e Governo, justiça e igualdade, fartura e miséria, mas logo passa, e vem a resignação religiosa ou o ódio inumano do pânico narcísico. Entre a submissão e a delinqüência, todas as graduações e ambigüidades; entre o estigma e a cidadania negada, todas as táticas de sobrevivência. A esperteza é a arma do pobre, em conjunção com a solidariedade. Nem com a exposição da favela na mídia é possível imaginar o que seja viver num lugar como o que freqüentei. Tudo incomoda os sentidos. Feiúra e falta de espaço, promiscuidade arquitetônica; há sempre uma cloaca da cidade ao lado ou embaixo. Humano formigueiro em ebulição, privacidade e higiene são alienígenas, mas a simples alegria de viver transborda de criatividade. A melanina impera soberana, e com ela tanto o molejo quanto a molecagem, tanto o brega quanto a cachaça; e a maconha, claro – o crack já chegou na maioria, e os comprimidos e solventes não faltam - vem gente de bairros distantes se reabastecer.
Sem nem olhar para a questão de gênero, suponho que mais da metade das meninas acima de 13 anos já engravidou ou se prostituiu; e semanalmente, com a regularidade imparcial de uma justiça negra em mais de um sentido, jovens cadáveres são cercados por crianças cujo pavor e curiosidade já viraram indiferença ou sadismo, e todos esperam a equipe da Folha de Pernambuco ou dos telejornais locais para consagrar a banalidade do espetáculo.
A favela não é para amadores; soa como o discurso do paradoxo. O que pensar do recital em pleno mangue que um interlocutor da pesquisa executou para mim? Improvável colagem de materiais diversos, mosaico de falta e desamparo, paredes e teto e chão cuja fragilidade é idêntica ao do tecido social que justifica o mocambo. Na palafita que lhe servia de lar e que dividia com sua mulher e o filhinho de três anos, o único vão guardava todo o seu patrimônio: um colchão velho, um fogão de duas bocas, um rádio, as sacolas com os molambos.
Ele havia descrito seu breve período como traficante de maconha e cocaína, as farras e as armadilhas, sua mãe e seu filho, a consciência, a solidariedade, a esperança de uma vida melhor. Saímos para a beira da maré, eu, ele e o violino. Sobre as tábuas que precariamente nos sustentavam acima das águas inomináveis, com a meia-lua dos mocambos por trás e o mangue diante de nós, arranha-céus ao fundo, ele tocou. O que pensariam daqueles acordes emoldurados pelo crepúsculo, entre o refugo urbano boiando por todo o lado, os urubus, os chiés, os guaiamuns, as baratas, as catitas, os guabirus? Enquanto Vivaldi encantava sem espantar as garças, eu pensava na vida severina cantada por João Cabral; o repertório ainda incluiu Chico Buarque, Vinicius, Luís Gonzaga, e acabou atraindo uma revoada de meninos que abandonaram suas pipas para assistir ao inusitado espetáculo.
A questão que os impacientes inadvertidamente me impingem é: QUEM É ESSE OUTRO? E a questão se inaugura justamente por se tratar de um outro. Um outro de quem não se trata, ele está fora da relação doutor-paciente, portanto é um impaciente; que pode até vir a se tornar um paciente, afinal os pacientes de hoje foram os impacientes de ontem; e há notícias de doutores que também são uma ou outra coisa.
Mas o famigerado drogado só tem voz no interrogatório da mídia, da polícia e da justiça. Ele é errado apenas por existir, o seu uso de drogas é a explicação última de seus atos, e o tratamento é a pedra filosofal que o purifica e o eleva a um estágio mais próximo da normalidade.
O discurso medicalizante encontra eco nos anseios familiares: a abstinência é a meta imposta aos desvairados psiconautas, sob pena de exclusão definitiva. Porém, as estatísticas dessa vez são úteis para mostrar que não obstante as ameaças, sanções e guerra declarada, nunca tantos se drogaram tanto com tantas diferentes drogas.
O sujeito que se delineia através dos diálogos realizados é, antes de mais nada, plural. Assim como sua identidade, suas inter-relações com os outros usuários e com o restante das pessoas não podem ser reduzidas aos seus usos de drogas. Será que a unidade da imagem facilita a manutenção do estigma? Esse outro, impaciente ou paciente, não possui uma natureza intrínseca (biológica, psico-social) que os distingue dos outros seres humanos. Não há nada que indique alguma essência do ‘drogado’; por outro lado, parece haver uma imbricação dessa construção com os confrontos entre grupos politicamente determináveis.
Negar a pluralidade dos usos, a multiplicidade de sentidos, a complexidade dos motivos, não cabe mais em nenhum comentário que aspire à contemporaneidade. São recorrentes nos discursos dos pacientes e impacientes – e também entre os doutores - a crítica, a revolta, a acusação, trazendo à tona as contradições: afinal, ações similares são estimuladas ou condenadas com o mesmo rigor, à mercê de interesses econômicos.
Em suas buscas pela transcendência, explorando os limites da consciência e também da intersubjetividade, os usuários de drogas tropeçam na desintegração - imprescindível a qualquer ato criador. Não é fácil movimentar-se entre o caos fundador e a ordem estabilizadora. Habitar os limites pode ser fatal - é alto o preço pago pelos exploradores dos cimos e das profundezas da experiência humana.
Os sujeitos que me presentearam com sua confiança não falaram somente deles e de suas trajetórias como drogados: eles me falaram de ser ou não ser, e ser; de viver em Recife, Pernambuco, nordeste brasileiro, nos primeiros anos do século XXI; de ser rejeitado e de rejeitar; de estranhar e de se identificar; de divinizar coisas e de coisificar pessoas; de pensar e de sentir e de sonhar; de estudar e trabalhar, também; de amar e de perder; de gozar sofrendo e sofrer gozando; de usar e ser usado; de excluir e ser excluído; de dizer sim e não e talvez, daqui a pouco, agora; de subir ao céu e despencar no inferno todos os dias; de acreditar no inimigo e de ser traído por si mesmo; de falar com fantasmas e não admitir aqueles que sofrem pela overdose de realidade; de ser inexoravelmente um e de não poder ser sozinho; de nascer, crescer, morrer.
A norma, a aceitação; a pureza, a sujeira, a ordem, a desordem e o medo da diferença; o controle, a liberdade, a adequação... Depois da obra de Foucault, das reflexões de Douglas, da desconstrução do estigma por Goffman, dos estudos de Becker sobre os desvios, da antropologia da doença realizada por Laplantine, e de tantos que acusaram a rigidez dos modelos explicativos, e as antagônicas, às vezes complementares e sempre políticas visões de saúde e de doença... As fronteiras não são apenas móveis, contingentes, são utilitárias – elas vêm mesmo a calhar...
Os índios Fulni-ô, de Pernambuco, dizem que ninguém adoece sozinho. Quantas lágrimas terão que ser derramadas... quantos bodes expiatórios... Quantas vezes ainda será necessário perguntar: a quem interessa a guerra às drogas? E como declarar guerra em nossa própria família? Demonizando algumas substâncias e endossando outras, a atitude bélica apenas cinde a questão, sem contribuir para sua compreensão, e ignora uma regra básica do mercado: ao combater a oferta torna-a mais complexa e competitiva, e ao discriminar, medicalizar, criminalizar a procura, a mantém estimulada.
“A tendência contra a qual Derrida se levanta em armas é a abominação do acaso, o horror do contingente, que desencadeou e motivou a longa marcha para uma ordem perfeita e imutável (...) Os estabelecidos, os seguros, os abrigados, os nativos – insistia Chestov – só podem manter sua frágil ordem quando assistidos pelo poder. (...) Humanidade significa possibilidades sem limite. É a abertura criativa da existência humana, sua irrevogável ausência de finalidade, sua capacidade de romper todas as muralhas, por mais duras e armadas, que as forças coercitivas convocadas por Atenas – o princípio da contradição, do terceiro excluído, em união com os Estados e religiões absolutistas – pretendem conter na prática e anular na teoria. (...) a busca do conhecimento absoluto significa a busca do poder absoluto”.
(BAUMAN, 1999: 190 / 320)
Os usuários de drogas tanto são discriminados pelos não usuários, quanto se discriminam entre si; fatores como etnia, classe social, tipo ou marca da droga e sua contingente legalidade ou ilegalidade, os companheiros e o ambiente, a quantidade usada, os utensílios, as reações desencadeadas, as manipulações do estigma...
Deixando um pouco de lado a milenar convivência do homem com o álcool e o tabaco, e os usos e abusos da psicofarmacologia – o que buscará o usuário de drogas ilícitas? Antes de mais nada, ele precisa ter ou ser um ‘avião’*, encarar a ‘boca’, os ‘malas’, a blitz, o gueto, o caro barato, os nem tão bons companheiros, a viagem que pode ser ‘bode’, tanto desempenho para tão pouco proveito, instantes de desorientação ou estímulo, e um compartilhado prazer quase sempre pouco mais do que modesto. Meus interlocutores parecem afirmar que “essa vida” deles é pouca, é suja, mas é deles – é eles.
Mitologias, ideologias... O desafio é equacionar co-morbidades, eventuais dinâmicas psicóticas, inter-relação de percepções e motivos, identidades e status, as maneiras capitalistas de produzir e consumir, além do excedente de significado da droga que passa a ser o fetiche por excelência, a mercadoria definitiva da perversão.
Os doutores – também interlocutores da pesquisa e terapeutas dos pacientes usuários de drogas - ecoam minhas inquietações ao me proporem a questão: QUEM É QUE TRATA? Como estão imbricadas as representações simbólicas dos terapeutas e de seus pacientes usuários de drogas? Dar conta disso talvez seja possível investigando como se constituem mutuamente, ao longo da história, “o médico e o monstro”; aceitando solidariamente os nossos limites e possibilidades sem limite, “os prazeres do céu e as dores do inferno” como cantou Walt Whitman.
Gilbert Durand (2001) descreve como o confronto essencial do homem com o limite inexorável de sua mortalidade – expresso pelo tempo e pela fatuidade da vida – criou uma constelação de símbolos que passando da violência da animalidade, até as trevas e a queda, incluíram o sangue, a lua, a noite e a mancha. Esta última evocaria a desordem, a sujeira, a contingência e a morte, devendo ser purificada e substituída por uma marca que simbolizasse a ordem, a pureza, a determinação e a vida.
As repercussões da obsessão pela ordem / pureza, em relação ao objeto da presente pesquisa, parecem compor uma estratégia de exclusão da ambivalência (que representa tanto a morte quanto a mudança); busca eliminar a suposta mancha do usuário de drogas impondo-lhe uma marca simbólica – que se já foi e ainda pode ser religiosa, hoje é jurídica e/ou médica – identificada com a luta para garantir a ordem estabelecida e as certezas que a sustentam.
Como escreveu Bachelard (1968), “não basta, para os ‘compreender’ a partir da lei, de rejeitá-los à margem da lei?” Quando desfrutaremos da “felicidade de uma leitura feliz” das convergências simbólicas do homem diurno e do homem noturno intuídos por Bachelard? A questão que me parece sugerida pelo encontro dos dados etnográficos com os vieses teóricos escolhidos é a seguinte: COMO OS USOS DE DROGAS SE TORNAM ALVOS DE USOS / AÇÕES POLÍTICAS?
O sintoma do dependente químico é a sujeira que ameaça a ordem; o dependente está contaminado e se torna o estrangeiro; o tratamento é o ritual de purificação que visa à abstinência; a marca / estigma do doente e/ou criminoso o recoloca na ordem social estabelecida, e simultaneamente a protege e legitima.
A pesquisa realizada para a dissertação de mestrado “Poeira de Estrelas” teve como foco a inter-relação simbólica de usuários de drogas e seus terapeutas; procurei descrever como os saberes-poderes que amparam certas práticas supostamente terapêuticas podem repercutir dois arquétipos complementares: a mancha e a marca. Diante dos dados e de minha análise, os paradigmas decorrentes de uma visão esquizomórfica no tratamento de pacientes usuários de drogas mostram-se cientificamente infundados, politicamente determináveis, moralmente estigmatizantes e terapeuticamente ineficazes. Os jovens usuários de drogas com os quais dialoguei me parecem plurais como seus usos, motivações e reações – que também expressam uma positividade que se abre à imaginação – embora se apresentem vulneráveis a dinâmicas psicopatológicas, construídas nas trocas simbólicas com seu contexto sociocultural.
Em uma conjunção experimental da antropologia, psicologia, psicanálise e literatura, o que pretendi não foi oferecer uma imagem do ‘drogado’; mas penso ter desvelado parcialmente um caleidoscópio de imagens do sujeito usuário de drogas, que curiosamente se confunde com as injunções de nosso cotidiano pós-moderno. São meus interlocutores – inclusive os doutores – que afirmam: os usos de drogas podem ser vistos como maneiras de estar no mundo, expressões do sujeito humano no mundo, ou seja, derivativos de nossa condição humana. Se o que o sujeito deseja é o desejo do outro, a droga sempre diz sim e lhe faz gozar como nenhuma outra. Devorando Dionísio, ao ser um com a droga, tem tudo, pode tudo, é tudo: ele é Deus e não se nega nada. Não somente o satori do zen budismo, mas toda e qualquer experiência é absolutamente indescritível. E Fernando Pessoa esclarece: é uma intersecção de duas paisagens, interna-externa, prenhe de significados, campo de mutação em flor... Génoi hoios essí – o “torna-te aquilo que és” de Píndaro, esse foi o lema maior de Nietzsche, do começo até depois do fim, da juventude à sabedoria e à loucura:
Não há dia: existe a necessidade.
Não há desejos: enfileiram-se as urgências.
O sol não nascerá, o mar foi com o vento.
Ninguém respira ao meu redor
sigo sozinho, desviando obstáculos.
Ensaio imagens no plácido lago
cego de ontem, esquecido de amanhã
enquanto o inominável
bate incansável à minha porta.
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* Gírias de usuários de drogas: avião: micro-traficante ou pessoa que faz a ponte entre o traficante e o usuário; boca: local de venda de drogas ilícitas; malas: tanto os traficantes como os policiais; blitz: batida policial; bode: má viagem, efeitos desagradáveis causados pelas drogas.
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